sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O Edifício

As pessoas nascem sozinhas, elas permanecem sozinhas e elas morrem sozinhas. As portas que eram pra estar abertas, lamento dizer a mim mesmo; estão fechadas e trancadas com mil e um segredos diferentes. Eu cansei, na verdade, eu me contentei , em lidar com essa situação. Sou o herdeiro de um legado maldito, todas as lacunas que estão, supostamente, sendo preenchidas, eu já as conheço há muito tempo. Tempo capaz de enlouquecer e matar tudo ao redor. Outro dia, eu sonhei que estava no alto de um edifício, ele parecia ser construído de sobras de outras construções, embora talvez o alicerce pudesse ser forte, as vigas eram tortuosas e frágeis. No topo deste prédio, estava acontecendo uma espécie de palestra, pareciam ser várias turmas num auditório. O orador não me agradava, mesmo eu não tendo visto quem era e muito menos sobre o quê falava. Em determinado momento, alguém do meu lado puxou assunto, e eu, já entediado com tal palestra, dei prosseguimento à conversa. Eu estava me divertindo, aquela distração parecia me fazer esquecer de quê deveria manter o silêncio. Uma mulher que estava de pé, bem próxima, exigiu que ficássemos quietos. A ordem mal pode ser acatada, e o edifício todo estremeceu e começou a cair. A reação foi imediata, não havia tempo pra pensar em nada. (E mesmo que houvesse, o impulso não me permitiria, assim como em várias vezes; pensar.) Corri depressa para a saída de emergência que dava acesso à uma escada, externa ao prédio. A construção ia dissolvendo-se, os gritos de desespero das pessoas era angustiante... a escada armada em ferro parecia papel, a medida que tudo ruía, as soldas desgarravam-se das já inexistentes paredes. Eu pulava vários degraus por vez... a premissa de salvar-me, consumia tudo o quê havia em mim de energia. O cansaço e o medo começou abater-me... de repente, ao meu lado apareceu o ser com quem tanto conversei durante a palestra, estendeu-me a mão, e sem hesitar, retribuí ao gesto. O caos alastrava-se sem piedade, pessoas começavam a se jogar da escada, outras eram pisoteadas... os óbitos estavam sendo assinados, mas eu parecia estar gostando daquela situação, ou apenas da companhia. Em meio à desgraça conseguimos alcançar o chão e, ilesos, nos afastamos o mais rápido possível do desabamento, correndo contra o vento e deixando para trás uma tempestade devastadora. A escada tombou, as vigas se partiram e as pessoas eram apenas corpos.[...] Logo depois acordei, acendi um cigarro e pensei a respeito.

- Música: Protège-Moi - Placebo

domingo, 18 de janeiro de 2009

Ar(i)es Infernais

Poesia de minha autoria. Não espero que lhe agrade.

Existe no universo, até ao mais profano ser, algo pior
que olhar e não poder agarrar, sem ter que devolver?
Devaneios à parte, a mente está deveras confusa
Tal qual uma vida ilusória; amargurada e difusa

Os ares vindos do inferno, ergueram minha muralha
entretanto, por quanto tempo eu ei de perguntar
Aos sucessivos abalos... ela vai suportar?

Jorra sangue em meu calcanhar-de-Aquiles
Na pro eminência de nunca estancar
Estou sendo invadido por um exército de sentimentos
Não me instrua ao norte, porque ésta noite o mundo pára de girar

Estou bailando sob os trilhos, de um velho e condenado trem
Os fantasmas do passado me observam com repúdio
como se já fosse impróprio se dançar assim

Eu ainda não dei por visto, vou rodopiar até cair
beber na fonte de água pura, preciso satisfazer a injúria
E antes do nascer do sol, gozaremos de toda capacidade
Realizada a luxúria, vamos submergir no mar da eternidade...

sábado, 17 de janeiro de 2009

Superficial Superfície

"Tu és fraco, eu sou forte." O protocolo é questionável. Não importa o quanto alguém possa resistir aos ataques da própria mente; tal indivíduo não é estável, não é resistente, quisera sábio. Todavia, não se pode atirar a primeira pedra, porque no acaso do destino, talvez nosso telhado também seja de vidro. A uma hora dessas, me pergunto por onde andará meu pensamento. Eu caí no abismo da solidão, e lá encontrei alguns seres... fui pisando sob cabeças, ignorando sentimentos, destruindo esteriótipos, eu era capaz de tudo para alcançar a superficial, superfície. Francamente, me auto flagelei sem que me desse conta... Algumas pessoas jogaram cordas para mim. Se eu aceitei? A resposta sempre foi um solícito: Não. Mas existe ao menos uma justificativa; no claustro, eu seqüestro a lucidez.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O Mundo Caiu

Meu mundo caiu
E me fez ficar assim
Você conseguiu
E agora diz que tem pena de mim
Não sei se explico bem
Eu nada pedi
Nem a você nem a ninguém
Não fui eu que caí
Sei que você me entendeu
Sei também que não vai se importar
Se meu mundo caiu
Eu que aprenda a levantar.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Solidão Platônica

Dói viver, nada sou que valha ser. Tardo-me porque penso e tudo rui. Tento saber, porque tentar é ser. Longe de isto ser tudo, tudo flui. Mágoa que, indiferente, faz viver. Névoa que, diferente, em tudo influi. O exílio nada do que fui sequer. Ilude, fixa, dá, faz ou possui. Assim, noturno, a áreas indecisas. O prelúdio perdido traz à mente... O que das ilhas mortas foi só brisas[...] Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo... E o meu sentimento é um pensamento vazio. Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam. Todas aquelas de quê me arrependo e me culpo. Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam. Todas aquelas de quê me arrependo e me culpo. Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada, e até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo. Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo. Lá fora há o silêncio dessa coisa toda. Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer. Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir. Sou uma sensação sem pessoa correspondente. Uma abstração de auto consciência, salvo o necessário para sentir consciência, salvo -- sei lá salvo o quê... E as longínquas profundidades do poço, que tantas vezes, pálido, evoquei; com a raiva de amar em alvoroço. Inevoadas hoje, diante de mim estão.
(A seguir, uma poesia minha.)

Outrora, eis uma demasiada felicidade
Que por acaso do destino, ou não
Foi dilapidada e está a sete palmos
Abaixo do chão

As memórias estão se perdendo
Tão fácil quanto meus relacionamentos
Canso de ser a figura, implacável
Preciso de você para minha vida, ser durável

Ardes no inferno... o fogo está quente?
A recíproca falsa, decapita até meu ascendente
Mas não tente desvendar, minha alma calada
Há uma paixão platônica
Há uma vida ameaçada, destrutiva, mal-amada

Afrodite, minha deusa maldita
Teu súdito lhe odeia, de forma excepcional
Vou cravar uma foice em sua aljava
Vou assistir ao seu martírio, do camarote sepulcral

Do meu sorriso debochado, escorrerá veneno
Do meu olhar impetuoso, uma ressalva agonizante
E do desejo sórdido; o beijo de paixão e ódio.

- Música: Tainted Love - Marilyn Manson

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Contos e Crônicas

5:37 AM. Estou escrevendo alguns contos e crônicas, irei postá-los de vez em quando, se der vontade. Abaixo, um dos que comecei a escrever. Divirta-se. (Se puder)

Era um dia cinzento, gélido. Eu havia cansado de tudo; dos mesmos rostos pelas esquinas, dos assuntos e das notícias, das inúmeras relações de hipocrisia. Como um vento que dá e passa, a tarde foi perdida... em meio a tantas devagações e pensamentos, eu joguei um pouco das minhas memórias na mala. Eu tranquei a mala. A iluminação do quarto era deveras fraca, eu mal conseguia guiar-me dentro daquelas quatro paredes, e somada à garrafa de vinho da cabeceira, eu já não podia enxergar mais nada a minha frente... porque não há luz, quando se está no fundo do poço. Desloquei, angustiado, a cortina do quarto, apertei os olhos e foquei no fim da rua: não vinha ninguém. Um emaranhado de sentimentos se apossou da minha alma, o transtorno me dominou, me fez arremessar um artefato contra o espelho, que se fragmentou em múltiplos cacos. Interrompi a histeria, mas ela jurou voltar novamente. Inclinei-me ao chão e fiquei observando cada pedaço quebrado, eles refletiam a rara luz do ambiente, a propagavam em várias direções até que, de repente, um dos raios luminosos atingiu em cheio os meus olhos. E como uma lâmpada que se acende, surgiu um desejo inapagável em minha mente. Levantei e fui me vestir, trajando luto, saí daquela propriedade rumo ao indefinido, ao sedutor, ao tempo, a você... [...]

- Música: Melt - Siouxsie & The Banshees