sábado, 31 de julho de 2010

Indagações

Você saberia diferenciar o alívio que sente da agonia que sentiu? Saberia dizer se do céu que você admira cairia o raio que te partiria a consciência em duas e te faria drão? Morte é a solidão que te agoura no escuro, no frio de uma noite em um verão que nunca morreu no seu peito, fotografias e recortes, temperaturas que você não saberia mais descrever. Os invernos debaixo da sua ausência são rigorosos. Olhe para outro lado e lave o sangue entre os dedos; o sangue que preenche o abismo dos nossos nomes gravados na parte interna das alianças feitas sem méritos, as enormes lacunas entre as nossas semelhanças. Você saberia me dizer para onde ir, ou de onde veio? Usaria o véu que cobre a minha mágoa no dia em que se fechasse a porta do meu último leito, colheria as rosas entoando cânticos que nascem dos orifícios aonde a sua fuga me feriu? Medo é o seu sangue desdenhoso, seu ardente desgosto, desgostosa relíquia; sua energia vital fluindo em suas curvas de sereia, como borboletas em seu estômago, em seu sétimo dia de prazer, as asas desfalecendo lentamente, se juntando ao pó que dança invisível no vento que sopra para longe o seu perdão. A sua carícia é um corte fundo no formato dos seus dedos, tamborilando outrora em minha pele, num gesto tímido e distante de afeto.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Direção

Não sobra muito no que pensar quando sua mente está lotada. Chega uma hora na vida de um homem que, no dito popular, ou vai ou racha. A hora do fazer, ou ser só mais um. E pelo amor, eu não suportaria ser só mais um. Então escolhi ir, ainda em referência ao dito popular. Me sinto bem, me sinto satisfeito, focado e com um objetivo. No que se diz à avaliação do esforço de cada um, talvez seja esse o patamar de satisfação que todos nós buscamos. Certamente foi o que busquei durante esse tempo todo.
Pouco podia ser pior do que ficar à deriva. Era uma tortura, demorada e angustiante, a espera de um evento que me comovesse. Mas à medida que se doma o próprio ego - e o meu é um animal arredio - percebe-se que a medida mais fácil pra fugir é comover-se a si mesmo, pelo próprio sentido de comover-se. Depois de subjugada a vontade, não há necessidade de esperar um empurrão do destino em direção às estrelas se você mesmo é capaz de fazer esse salto.
Me sinto norteado, e pra mim é o suficiente, por enquanto. Acho que é melhor esperar a hora de dar um salto maior do que esperar ser empurrado pra cima pelo destino.
Encham a cabeça de objetivos. Pensem em sempre crescerem; desejem serem maiores do que nasceram pra ser.

sábado, 24 de julho de 2010

Ferida

Fui ferido e parece que não posso cicatrizar, não sei porque Deus empurrou mais essa dor em meu coração , estou tão desgraçado e perdido. A metrópole cheia de pessoas vazias, tantas promessas em vão, gostaria de entender o por quê de você não se render aos meus encantos. Mesmo não me conhecendo direito; eu sou tão amável, ainda que eu seja duro com as palavras e experiente em meu discurso persuasivo. Por que você não me dá uma chance? Eu poderia lhe mostrar o que existe por debaixo da minha armadura, não deixe uma pessoa como eu escapar da sua vida, há oportunidades que nunca mais voltam.

Se Deus é bondade, não sei por quê ele me submete a tantas provas.

domingo, 18 de julho de 2010

Busca

O problema de achar é que cessa a busca; e se mantém sólido até que se perca de novo. Inevitável como a tendência da matéria organizada à entropia, e da mesma forma, sempre se perde algo. Inexorável, fato consumado. Varia o intervalo de tempo: encontra-se o que buscava, sobe o muro e observa o resto do mundo se degladiar e se deglutir sobre si mesmo tentando alcançar-te. Te divertirá a vulgaridade do homem comum buscando o patamar superior em redundâncias, ingênuo ao fato de que procurar redundâncias é o que os prende ao chão, enraiza seus pés ao solo podre do mesquinho.
Mas percebe que do seu muro alto dá pra ver distante, como se sempre quis deixar de ser míope, e a realidade inteira te parece nova. Vê, a sua análise foi despedaçada em idéias toscas e pueris, quase à ponto de te ser vergonhoso - ou engraçado. Porque seu foco mudou; tu enxergas longe agora. Tu enxergas através, ao redor, entre e à frente, agora. Enxergas vultos de idéias que nunca sequer cogitou existirem e sua razão brilha, ofusca sua glória de domar-te a si mesmo.
Agora, você se perdeu. Estás perdido um andar acima ao de antes, mas ainda perdido. Porque agora você se sente sol entre as minúsculas formas que tentam domar o teu muro, a tua luz; mas ainda se sente uma mera estrela frente à tua própria grandeza.
Crie o novo, transforme o novo, seja o meu novo...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Lugar Nenhum

Essa solidão que sinto não é tristeza. Nem sequer um sentimento triste. É o distanciamento natural, físico, a impossibilidade de ser. Eu estou em lugar nenhum. Estou dentro da mente, em um mundo de idéias, feito de razão, e aqui faz muito, muito frio. Essa tristeza que sinto não é um sentimento, e sentir arruinaria a complitude dessa decepção. É saber que por mais perto, eu não seria capaz de habitar o mesmo espaço, porque dos meus, existem dois - três, quatro, cinco; e estamos todos num plano feito de idéias. Idéias sem idade, idéias etéreas.
Você não seria capaz de me reconhecer se me visse. Não seria capaz de me apontar um dedo se me visse de perto. O que se reconhece é o produto; mas eu sou a equação. Os fatores que disputam entre si, para formar uma imagem nítida num plano em que eu não existo.